Escrevi esse texto com o intuito de propor uma reflexão sobre uma dinâmica que está muito presente em nossa sociedade: a exigência pelas Soft Skills ou habilidades interpessoais/comportamentais.

“… muitas vezes tomamos uma ideia como verdade só porque ‘todo mundo’ está falando dela e, sem questionar, somos levados pela ‘onda’ do momento.” 

O que estou querendo dizer com isso? É que precisamos refletir, questionar e ver se faz sentido como as coisas são apresentadas pra gente para não levar como uma verdade absoluta o que dizem por aí.

Por mais especialista que a pessoa seja no assunto, muitas vezes o que é dito não dá conta de considerar todos os contextos. Por isso é importante escutar, respirar e refletir para considerar e adequar ao seu contexto o que está sendo dito ou exigido e aí ver se faz sentido pra você ou não. As sábias “mães” já diziam: “Você não é todo mundo”.


A vez das “Soft Skills”

Por que estou trazendo essa reflexão? Porque, agora a vez é das “Soft Skills” ou habilidades interpessoais/comportamentais no nosso idioma. Da qual sou muito entusiasta, entendo e sinto que a humanidade carece desenvolvê-las, mas com coerência. Bem, como assim com coerência? Até “ontem” nem se falava nisso, agora é um dos assuntos mais em pauta, logo a exigência de que uma pessoa-profissional tenha essas habilidades é em tempo de “fast food”. Minha preguiça começa aqui…

É interessante observar como “o mercado”- entende-se: o sistema capitalista, empresas ou as pessoas que constituem uma empresa –  tenta mecanizar quase tudo. Isso está tão enraizado e convencionado que o contrário disso pode causar estranheza, como esse texto, por exemplo. E aqui não estou “culpando” ninguém, isso é uma dinâmica que foi sendo construída e normatizada durante anos pela “sociedade” na qual estou inserida.

Trazendo um pouco de contexto de como esse assunto é relativamente “novo” em nossa sociedade, na verdade é “novo” no sentido de agora ser considerado essencial – entendo que isso se deu ou se acelerou por conta da “crise sanitária” que estamos saindo.  

A Base Nacional Comum Curricular entrou em vigor em 2020, ela tem como principal objetivo garantir uma educação com equidade por meio da definição das competências essenciais, no qual uma delas é o desenvolvimento de habilidades socioemocionais para a formação do cidadão em cada ano da educação básica. Ou seja, as escolas ainda estão no processo de implementação da base, logo os nossos professores também estão no processo de desenvolver essas habilidades e ou de como “ensiná-las”. 

“Entende-se que as habilidades socioemocionais são um conjunto de aptidões desenvolvidas a partir da Inteligência Emocional ou Autoconhecimento. Em outras palavras, elas apontam para dois tipos de comportamento: a sua relação consigo mesmo (intrapessoal) e a sua relação com outras pessoas (interpessoal).” Fonte: educador360.com

Deixo aqui uma pergunta para refletirmos: Quantos adultos que você conhece tiveram educação socioemocional? 

Eu posso dizer, com toda segurança, que boa parte das pessoas com quem tive contato ao longo dos meus quarenta e poucos anos, nenhuma teve educação socioemocional na escola ou em casa de maneira intencional e consciente. E agora, o mercado quer “exigir” as “Soft Skills” a toque de caixa? Como assim? Pessoas não são computadores que podem ser programados para executar algo na semana seguinte…isso é um processo, É UM PROCESSO! 

O discurso é muito bonito, no papel ou na tela cabe qualquer exigência, mas na prática meus amigos e amigas o buraco é mais embaixo… é um processo a ser desenvolvido com muita (auto)paciência, coerência, (auto)compaixão e (auto)empatia e apoiado por pessoas que já estão no processo do autoconhecimento (porque a partir do momento que iniciamos esse processo ele é para “sempre”), pois não damos aquilo que não temos. 

Competências socioemocionais e as demais competências que orbitam ao redor não podem ser aprendidas como aprendemos as competências técnicas que você lê em uma apostila, ou ouve de um professor(a), coloca na prática e pronto, está feito!

Desenvolver habilidades socioemocionais ou Soft Skills é um processo que precisa de tempo, muita reflexão, auto reflexão e auto observação, instante a instante, incluindo muita troca segura, além de considerar o ritmo e o contexto de cada um. Em outras palavras, é nas relações e nas situações que desenvolvemos habilidades socioemocionais, pois é um processo subjetivo e difícil de ser mensurado, podemos até proporcionar o mesmo conteúdo, mas o processamento e elaboração dependerá de cada indivíduo.

Entendo que estamos criando um novo jeito de pensar e agir, estamos mudando uma cultura, que por muito tempo valorizou somente o desenvolvimento cognitivo, ou seja, o intelecto…e agora precisamos ser pacientes e compreender que cada um tem o seu próprio ritmo, contexto cultural, processo e experiências para desenvolver as habilidades interpessoais.  Felizmente, isso não vai dar para “padronizar” ou “mecanizar” ou “escalar” porque estamos falando do SENTIR dos seres humanos e esse sentir é único, é como a digital, é como a voz…não tem duas iguais, logo não será possível “automatizar”. FELIZMENTE!!!
Essas “exigências” a toque de caixa, fazem sentido pra você? Que possamos ser mais coerentes e empáticos com os nossos processos e das outras pessoas.

Fabi Fonseca

Sobre Fabi Fonseca

Adoro ouvir histórias de vida e conversar sobre as questões do Universo, Cosmo, Todo, natureza, educação, psicologia, culturas… Co-criadora do projeto Economia Divina, estudante do UCEM (Um Curso em Milagres), UCDA (Um Curso de Amor), certificada no nível 1 de Frequência de Brilho e facilitadora do Jogo do Conhecimento Maha Lilah. Atuei por mais de 10 anos no terceiro setor na área de mobilização de recursos com projetos de sustentabilidade, cultura e assistência social. Em 2017 fiz uma mudança de carreira, atualmente estou trabalhando como facilitadora de processos de aprendizagem e formadora de metodologias ativas para educadores da educação básica. Tenho graduação em ciências sociais e especialização em neurociência aplicada à educação, possuo formação técnica em gestão de projetos sociais e em facilitação de processos.